Ganhei de presente no última Dia dos Pais e demorei um pouco para ler, por conta de uma lista de leitura na qual outros tipos de texto têm privilégios (tese!), mas terminei ontem (31 out 2009) o Leite derramado, de Chico Buarque. Uma nota recentemente publicada na revista Bravo, informa que Chico teria declarado que a música é arte da juventude e que a literatura é arte da maturidade. Isso está plenamente de acordo com sua escrita. Quem acompanhou seu estilo desde o Estorvo, seu primeiro romance, pode perceber sua evolução. Estorvo, aliás, cntinua sendo, na minha modesta opinião, seu romance mais enigmático. Budapeste, penso, é o mais bem acabado e, por isso, mais fácil de digerir.
Em Leite derramado, um homem muito velho está num hospital e relata, numa conversa direta com o leitor, usando outros personagens como pretexto, a saga de sua família, tendo como pano de fundo, como observou Leyla Perrone-Moisés na orelha do livro, a história do Brasil dos últimos dois séculos. O velho desfia, num monólogo, intermináveis e repetitivas histórias dos seus dramas familiares. O texto é uma referência explícita a sua bela música O velho Francisco, de 1987. Chico, aliás, ainda muito jovem já havia manifestado preocupação com a temática em O velho, de 1968.
Como na música, o personagem do romance torna-se ícone dos velhos que abandonamos nos asilos, quando já não são merecedores de nossa paciência. Como na música, o velho representa o que sobra de uma longo caminho de decadência social e econômica e que, sem prestígio, é abandonado à própria sorte.
Destaco alguns trechos:
[...] Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. o ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa de sua feíra. [...] (p. 62-63)
[...] Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar. [...] (p. 96)
O texto é, como se pode perceber pelas amostras, e como se pode esperar do nome que o assina, muito interessante, mas, quer saber, ainda prefiro a juventude de Chico Buarque expressa em suas músicas.
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Eu também prefiro..
Sua literatura é muito difícil pra mim. Estorvo achei mesmo muito “puxado”, no sentido de querer ser como José Saramago (é o que penso, apesar de ter lido um só livro do Saramago). Só não sei quem começou primeiro na literatura
Mas Chico cantor é um dos melhores, não é, não?
Dani