Reflexões sobre o bibliotecário

Walter Moreira – 24 out. 2009

Reflexões sobre o bibliotecário – Walter Moreira – 24 out. 2009

Para que entendamos um pouco melhor o que representa o universo da biblioteconomia, retomo Umberto Eco e seu famoso O Nome da Rosa. O ambiente do romance, relembremos, é uma abadia do século XIV, no sul da Itália, onde ocorre uma série de homicídios motivados pelo interesse que determinados livros despertam. Interessa-nos aqui, e passo a citar, o momento em que o Abade fala sobre o papel do bibliotecário:

[…] Somente o bibliotecário, além de saber, tem o direito de mover-se nos labirintos dos livros, somente ele sabe onde encontrá-los e onde guardá-los, somente ele é responsável pela sua conservação. […] E o elenco de títulos sempre diz um pouco, somente o bibliotecário sabe da colocação do volume, do grau de sua inacessibilidade, que tipo de segredos, de verdades ou de mentiras o volume encerra. Somente ele decide como, e se deve fornecê-lo ao monge que o está requerendo […]. Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos (ECO, 1983, p. 53-54).

Ainda bem que isso mudou um pouco, não é? O que significa ser bibliotecário hoje? Todos já ouvimos falar da sociedade da informação. Uma pesquisa pelo termo informação no Google, esse oráculo moderno, resulta em 4,5 milhões de páginas. Isso apenas em português; em inglês, o número sobe para 120 milhões. Não tive tempo de ler todos os textos encontrados… Nunca teremos tempo de ler todos eles. Com a avalanche diária de publicações impressas ou digitais hoje, é possível que nem encontremos mais os documentos de que precisamos. É para isso que precisamos de bibliotecários, para nos ajudar a resolver nossa ansiedade de informação.

Num livro intitulado Missão do bibliotecário, que já conta cerca de quarenta anos, o pensador espanhol Ortega y Gasset, preocupado com o crescimento exponencial da produção de livros, atribuiu-nos a missão de atuar, fundamentalmente, como um filtro que se interpõe entre a proliferação descontrolada de publicações inúteis e o leitor. Para que saibamos separar o útil do inútil, precisamos de critérios de classificação, indexação e disseminação da informação. Precisamos de bibliotecários tecnicamente competentes e culturalmente preparados. Há, por sinal, uma resenha do livro, muito bem feita no blog Dora Ex Libris.

A profissão desenvolveu-se à sombra de valores quase místicos: a biblioteca como templo, o livro como objeto sagrado (Deus nos fala por meio de um livro, não se esqueçam), o sentido misterioso, quase litúrgico, do ato de ler… Essa relação manteve-se mais ou menos estável desde o surgimento da escrita. Há, porém, algo no horizonte que promete mudar essa relação: a internet. Considerando-se o acervo que depositamos nas bibliotecas mundo afora, o que temos disponível na internet é [em 2009] ainda insignificante. Mas é algo que já começa a fazer sentido, notadamente no campo da literatura científica. Precisamos estar atentos!

Uma frase atribuída a Bossuet, bispo e teólogo francês do século XVII, diz o seguinte: “No Egito, chamavam-se as bibliotecas tesouros dos remédios da alma. Com efeito, tratava-se nela a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e origem das demais”.

Segue, portanto, um conselho final: é preciso disseminar o saber; é preciso amar os livros, independentemente do suporte em que se apresentem, e, igualmente, amar o ser humano, independentemente de sua origem ou condição.

Referências:

ECO, Umberto.  O nome da rosa.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

ORTEGA Y GASSET, José. Missão do Bibliotecário. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2006.

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