Walter Moreira – 01 nov. 2009
Ganhei de presente no último Dia dos Pais e demorei um pouco para ler, por conta de uma lista de leitura na qual outros tipos de texto têm privilégios (tese!), mas terminei ontem (31 out. 2009) o Leite derramado, de Chico Buarque. Uma nota recentemente publicada na revista Bravo informa que Chico teria declarado que a música é arte da juventude e que a literatura é arte da maturidade. Isso está plenamente de acordo com sua escrita. Quem acompanhou seu estilo desde Estorvo, seu primeiro romance, pode perceber sua evolução. Estorvo, aliás, continua sendo, na minha modesta opinião, seu romance mais enigmático. Budapeste, penso, é o mais bem acabado e, por isso, mais fácil de digerir.

Em Leite derramado, um homem muito velho está num hospital e relata, numa conversa direta com o leitor, usando outros personagens como pretexto, a saga de sua família, tendo como pano de fundo, como observou Leyla Perrone-Moisés na orelha do livro, a história do Brasil dos últimos dois séculos. O velho desfia, num monólogo, intermináveis e repetitivas histórias dos seus dramas familiares. O texto é uma referência explícita a sua bela música O velho Francisco, de 1987. Chico, aliás, ainda muito jovem já havia manifestado preocupação com a temática em O velho, de 1968.
Como na música, o personagem do romance torna-se ícone dos velhos que abandonamos nos asilos, quando já não são merecedores de nossa paciência. Como na música, o velho representa o que sobra de um longo caminho de decadência social e econômica e que, sem prestígio, é abandonado à própria sorte.
Destaco alguns trechos:
[…] Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa de sua feiúra. […] (p. 62-63)
[…] Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar. […](p. 96)
O texto é, como se pode perceber pelas amostras e como se pode esperar do nome que o assina, muito interessante, mas, quer saber, ainda prefiro a juventude de Chico Buarque expressa em suas músicas.