Linguagem e ontologia

Walter Moreira – 24 maio 2010

Li recentemente um livro muito interessante intitulado Ontología del lenguaje, de um pesquisador chileno chamado Rafael Echeverría. Nessa obra, para a qual não encontrei tradução em língua portuguesa, e que foi publicada em 1994, o autor defende, com um esforço quase apaixonado, a ontologia da linguagem como condição para compreender o que significa o ser humano em sua relação com o mundo intermediada pela linguagem, como o título permite antever.

Para o desenvolvimento de sua proposta, Echeverría apresenta três postulados básicos: a) a interpretação dos seres humanos como seres linguísticos; b) a interpretação da linguagem como generativa e c) o entendimento de que os seres humanos desenvolvem-se na linguagem e por meio dela. Apresento abaixo uma síntese dessas ideias (até quando ainda vou insistir em acentuar essa palavra?), no intuito de que o leitor se interesse pela obra e pelo debate.

Primeiro postulado: os seres humanos como seres linguísticos

Para não cair na tentação fácil do reducionismo, é preciso entender que priorizar a linguagem não significa prescindir de outras dimensões não linguísticas da existência humana. A opção pela linguagem deve-se ao fato de que é precisamente pela linguagem que é possível ao ser humano reconhecer os domínios existenciais não linguísticos e é também por meio da linguagem que conferimos sentido à nossa própria existência. Citando textualmente Echeverría (2003, p. 206, tradução livre):

O que chamamos mente, razão, espírito, consciência etc., são todos fenômenos baseados na capacidade recursiva da linguagem. Quanto mais nos deslocamos na cadeia recursiva da linguagem, mais somos capazes de observar nossas vidas como um todo; quanto mais nos aproximamos do mistério da vida, mais espirituais tornam-se nossas experiências. Quanto mais falamos “sobre” nossas experiências, ou “sobre” a experiência de falar sobre as nossas experiências, mais reflexivos nos tornamos.

Segundo postulado: o entendimento da linguagem como generativa

A linguagem, numa concepção tradicional, é vista como instrumento para descrever a realidade externa (o que percebemos) ou interna (o que pensamos ou sentimos). Há aí duas concepções fundamentais: a capacidade passiva ou descritiva da linguagem e a crença de que a realidade antecede a linguagem. Com os progressos no campo da filosofia da linguagem surgem novos entendimentos que permitem compreender que a linguagem não só descreve o mundo, mas também o faz acontecer, permite realizar coisas, isto é, possui função não apenas descritiva, mas também generativa.

O filósofo britânico J. L. Austin foi o primeiro a enfatizar essa qualidade ativa da linguagem ou, usando suas próprias palavras, a natureza ‘executante’ (‘performativa’) da linguagem. Nesta concepção, mesmo quando descrevemos, estamos “fazendo” uma descrição e, portanto, estamos atuando.

Terceiro postulado: a compreensão de que os seres humanos se criam na linguagem e por meio dela

Não sabemos realmente como as coisas são, sabemos apenas como ela se nos aparecem; sabemos como as observamos ou como as interpretamos. Vivemos em mundos interpretativos. A linguagem não é, desse ponto de vista, ingênua, pois qualquer interpretação altera a quantidade e a qualidade das possibilidades.

Não é apenas o que somos que dirige nossas ações; também somos de acordo com o modo como atuamos. A ação cria o ser, que evolui de acordo com o que faz.

É certo que os indivíduos atuam de acordo com os sistemas sociais nos quais estão inseridos, mas, ainda que condicionados por esses sistemas, também podem mudá-los. A linguagem é, aliás, ela mesma, fruto da interação social; a capacidade biológica para a linguagem não a cria, necessariamente.

Tratar o indivíduo e seu mundo como construções linguísticas abre possibilidades interessantes de interpretações. O autor examina, por exemplo, o domínio do sofrimento humano. O sofrimento, defende, é um fenômeno linguístico, e é isso que o diferencia da dor. O sofrimento é dependente de interpretações; sem linguagem não haveria sofrimento.

Já parou para pensar nisso?

Referência

ECHEVERRÍA, Rafael.  Ontología del lenguaje. 7.ed.  Santiago: J. C. SÁEZ, 2003.

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