Walter Moreira – 27 abr. 2010
Vivi recentemente duas emoções marcantes, de natureza e intensidade diferentes, mas irmanadas por aquilo (para o qual ainda não conheço o nome) que todas as emoções guardam entre si e que, no senso comum, é traduzido pela expressão “frio na espinha”. A primeira delas ocorreu no dia 10 abr., quando assisti pela primeira vez a um show de Maria Bethânia; a segunda no dia 23 abr., data de minha defesa de tese de doutorado, como já havia anunciado neste espaço.
Confesso: começo este post sem saber realmente como poderei unir coisas tão distantes como Bethânia e as ontologias, mas depois de vencer quatro horas de banca, considero este um desafio bem mais simples. Vamos a ele.
Baseado nos CD mais recentes, Tua e Encanteria, o show de Maria Bethânia foi realizado no Citibank Hall. A casa (cujo nome, na minha cabeça, ainda é Palace) é belíssima, elegante e com um aconchego ideal para um show intimista como o que vi. A turnê de Bethânia intitula-se Amor, festa, devoção, ensinamentos de Dona Canô para o bem viver, segundo declara a própria Bethânia em um dos momentos mais emocionantes do espetáculo. Bethânia conta isso logo após interpretar (e que interpretação!) Não identificado, de Caetano Veloso. Eis o que ela diz:
“Essa canção (‘Não Identificado’), do Caetano, era a música preferida do meu pai. Sempre imaginava que ele dedicava, silencioso, à minha mãe. Comigo acontece algo parecido. Mas Deus me deu voz. E assim faço ecoar no tempo o nosso amor por ela. Amor, festa, devoção. Ensinamentos dela para bem viver. Meu canto é teu, minha senhora”.

Só mesmo um “filho de chocadeira” é capaz de não se emocionar com isso. Ainda mais quando se considera que ela mal dá tempo para que nos recuperemos e já inebria a todos com Estrela, de Vander Lee. Se você quiser experimentar um simulacro dessa emoção, procure o vídeo no YouTube, há sempre uma boa alma que praticamente perde o show no afã de captar e disponibilizar algo.
O espetáculo é todo emocionante. “No Brasil hoje, quem canta e manda é Bethânia”, afirmou recentemente Jaime Alem, violonista que a acompanha há 27 anos, a quem Bethânia chama de Maestro. Ele sabe o que diz. O que há de mais envolvente na figura de Maria Bethânia é sua autenticidade. Gosto de sua atitude, de sua fuga de rótulos e me identifico plenamente com as coisas que ela valoriza, tão bem expressas no título do espetáculo.
Como Bethânia se relaciona com minha tese
Primeiramente, é bom que se saiba: não se constrói uma tese sem uma boa dose de amor e devoção (minha mãe também me ensinou isso sobre a vida). Sem amor ao conhecimento e devoção completa à pesquisa científica, é impossível qualquer avanço neste tipo de conhecimento. Pesquisar e produzir um relato de pesquisa, digo sempre, é um exercício completo de humildade, pois é preciso, diariamente, tomar contato com seus limites e com as crueldades da própria ignorância. Para escrever é preciso ler, ler muito e é preciso igualmente escrever e reescrever infinitas vezes o mesmo trecho. O que há de mais complexo no processo de pesquisa, penso, é exercitar a capacidade de desvencilhar-se das coisas que não poderão ser contempladas no trabalho, seja por conta do recorte temático ajustado, seja por conta do tempo ou, de novo ela, seja por conta da própria limitação da compreensão do assunto. Por que, então, pesquisar? Podem perguntar os mais apressados. Pela festa, eu diria, pelo prazer de poder contemplar algumas pequenas coisas com lentes mais limpas. Pela inenarrável alegria que se experimenta quando os próprios limites são superados. Pelo friozinho na espinha. Pela compreensão, afinal, de que Deus também me deu voz.