Os bookaholics

Walter Moreira – 12 set. 2009

Recentemente, vagando pela vasta rede, encontrei um texto muito interessante publicado no blog La république des livres, assinado pelo escritor e jornalista francês Pierre Assouline. O texto intitula-se Les bookaholics ne sont plus anonymes.  Apaixonado que sou, desde sempre, por livros, identifiquei-me imediatamente e quis trazer o texto para este espaço. A minha condição de leitor sem relevo da língua francesa permitiu-me ler o texto, mas não ousei traduzi-lo. Esbocei a ‘traição’ e solicitei a ajuda de meus amigos Lourdes Camelo (de quem já falei em alguns posts neste espaço) e de seu partner, Getulino. Eles foram gentis como sempre e traduziram (livremente) o texto que está abaixo.

Para os bookaholics  que ainda não conhecem, sugiro uma visita ao Skoob, uma espécie de site de relacionamentos para pessoas que gostam de ler. Vale a pena também conhecer o LibrayThing. São ótimos espaços se você é daqueles que ficam absolutamente curiosos sobre o que as pessoas andam lendo.

Chega de digressão. Eis o texto.

Os bookaholics já não são anônimos

Devo admitir desde o início: eu pertenço à categoria das pessoas que leem avisos em elevadores. Não para obter informações sobre os riscos e perigos da subida, mas pela incapacidade de realizar qualquer tipo de viagem sem ter que ler alguma coisa. Nada para ler seria uma perspectiva de pesadelo. Meus colegas e eu jamais atravessamos a cidade por transportes públicos sem um livro na mão, ou até mesmo um jornal, ou ainda uma revista em caso de interrupção prolongada e para qualquer viagem de trem, nos prevenimos com dois livros; por avião, três, no mínimo, porque voar sem ler nada aumentaria consideravelmente o receio de um sequestro seguido de uma interminável prisão de reféns. Geralmente, dizem-nos, com uma certa condescendência, que o mal tem tratamento. Que o abuso da leitura é prejudicial à saúde. Que é necessário consumir livros com moderação. O tempo de vergonha acabou.

Não que uma “parada do orgulho leitor” fosse agendada pelo prefeito de Paris, influenciado pelos correligionários da Princesa de Clèves que leem continuamente, girando em sua varanda. Melhor ainda, depois de constatar esta forma de dependência através dos muitos sites que a noticiaram, a Associação Americana das Bibliotecas anunciou no início deste mês, durante a sua conferência anual, que estava trabalhando com Associação das Editoras Americanas para que se assumisse com orgulho o que hoje chamamos de bookaholics, neologismo usado frequentemente para o trabalho frenético, sexo, jardinagem ou qualquer outra atividade. Mais numerosos do que se pensava anteriormente, os bookaholics são todos aventureiros que viajam pelo mundo em busca da paz e da felicidade da leitura de um livro sentado sob uma árvore.

O “bookaholismo” se caracteriza por um lado compulsivo-obssessivo, ininterrupto da leitura.

Livrarias e editoras ainda não decidiram construir um conceito positivo de desvendar sua dimensão patológica e auto-ridicularização e de a desviar para o lucro da indústria do livro.

Constituiram um grupo de trabalho com representantes da Random House (edição) e da WH Smith (biblioteca) a fim de refletir sobre a questão. Até o momento suas primeiras sessões (reuniões) se dedicaram à criação de um “logo” e de um slogan. Todos os clichês são colocados “a emoção portátil”. “Atenção, este livro provoca uma séria dependência”. “Deixe-se agarrar por um livro”, com uma preferência pelo jogo de palavras tais como: “Ler não é mais que uma vila de Berkshire” ou “o caminho da evasão’. Tudo isso se acompanha de “Livro aqui” (reserve aqui).

Finalmente, pela imaginação, eles dicidiram jogar um jogo franco e lançar uma campanha sobre o tema:” Eu sou um bookaholic” Muito simplesmente. Como se se agisse com obssessão do chocolate ou do shopping. Não foi a melhor maneira de subjugar sua vaidade às legiões de leitores.

Foi-se o tempo. Tanto que os mais modernos entre nós, nos limites do papel, leem desordenadamente com a mesma avidez dos readers kindle e outros escritos de bolso. Eles têm sempre a leitura na bolsa. Mas desta vez, em profusão.

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